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Artigo Técnico

A Casa Terapêutica Online: fundamentos clínicos de um instrumento de observação lúdica digital

Bruna Ligoski · CRP 12/17037

Psicóloga. Psicanalista. Neuropsicóloga.
Autora independente. Idealizadora da plataforma Casa Terapêutica Online.
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Resumo: Este artigo apresenta os fundamentos clínicos da Casa Terapêutica Online, instrumento qualitativo complementar de observação lúdica digital voltado à psicoterapia de crianças e adolescentes. Discute-se o brincar como linguagem privilegiada da clínica infantil e examina-se a possibilidade de preservação da dimensão simbólica e relacional em contextos mediados por tecnologia. Com base em referenciais psicanalíticos, desenvolvimentais, sistêmicos, gestálticos e cognitivo-comportamentais, argumenta-se que o ambiente digital pode funcionar como espaço de construção simbólica quando utilizado com mediação ativa do terapeuta. Também são delimitados os limites éticos do instrumento, especialmente sua não equivalência a teste psicológico padronizado e sua função como recurso auxiliar de reflexão clínica. Conclui-se que a Casa Terapêutica Online amplia o repertório técnico do profissional sem substituir a escuta, o julgamento clínico e o enquadre terapêutico.

Palavras-chave: Psicoterapia infantil. Brincar. Teleatendimento psicológico. Instrumentos digitais. Observação clínica.

1 Introdução

O brincar ocupa posição central na clínica infantil por constituir uma via privilegiada de expressão simbólica, elaboração psíquica e comunicação de conteúdos ainda não plenamente verbalizados. Winnicott (1975) situou o brincar no espaço potencial de constituição subjetiva, enquanto Aberastury (1992) demonstrou que o material lúdico pode expressar aspectos da realidade psíquica infantil de modo particularmente significativo para a escuta clínica. Esse campo teórico, consolidado ao longo de décadas, adquire novas implicações diante da expansão dos recursos tecnológicos e da necessidade de investigar em que condições a dimensão simbólica do encontro clínico pode ser preservada em contextos mediados por tecnologia.

A Casa Terapêutica Online caracteriza-se como instrumento qualitativo complementar de observação clínica, desenvolvido para uso em psicoterapia de crianças e adolescentes, tanto em contextos de teleatendimento quanto em atendimentos presenciais mediados por tecnologia. O objetivo deste artigo é apresentar seus fundamentos clínicos, éticos e metodológicos, delimitando seu estatuto como recurso auxiliar de observação lúdica digital e discutindo suas possibilidades de uso no processo psicoterapêutico.

2 Delimitação conceitual e limites de aplicação

Antes da descrição funcional do instrumento, é necessário delimitar seu estatuto técnico e ético. A Casa Terapêutica Online não constitui teste psicológico padronizado, não dispõe de estudos psicométricos de validade, precisão ou normatização e não deve ser utilizada isoladamente para fins diagnósticos. Seu enquadre é o de instrumento qualitativo complementar de mediação clínica, destinado a ampliar o campo de observação do profissional durante o processo terapêutico. Essa delimitação define sua finalidade, seus limites de aplicação e as condições éticas de uso, em conformidade com a Resolução CFP nº 9/2024 e com o Código de Ética Profissional do Psicólogo.

O instrumento consiste em um ambiente digital interativo, acessível por navegador e sem necessidade de instalação, no qual a criança ou o adolescente organiza livremente figuras humanas, animais e objetos em uma representação simbólica de casa composta por seis cômodos distintos: Quarto 1, Quarto 2, Banheiro, Jardim, Sala e Cozinha. Cada ambiente apresenta seu potencial simbólico, e a narrativa é construída pela criança. O acervo de figuras disponíveis para a construção simbólica reúne mais de 590 elementos, organizados em nove categorias, com representação diversificada de etnias, objetos, animais, faixas etárias, expressões emocionais e situações.

Por se tratar de um recurso qualitativo de observação clínica, sua utilização deve estar articulada às demais técnicas que constituem o processo terapêutico, elencadas por cada profissional com base em seu conselho de classe. As produções realizadas no ambiente digital devem ser compreendidas como indicadores clínicos hipotéticos, e não como evidências diagnósticas autônomas, visto que a casa se constitui como dispositivo para ampliar a escuta e observação.

3 Fundamentos teóricos e multirreferencialidade

A estrutura multirreferencial do instrumento não corresponde a uma opção eclética indiscriminada, mas a uma resposta à realidade da clínica contemporânea, na qual profissionais de diferentes orientações teóricas utilizam o brincar como mediador clínico a partir de fundamentos distintos e teoricamente consistentes.

Do ponto de vista psicanalítico, o instrumento se apoia na tradição que compreende o jogo como equivalente funcional à associação livre adulta. Klein (1997) propôs que a criança que brinca projeta no espaço lúdico seus objetos internos, suas ansiedades e suas fantasias — e a disposição das figuras no tabuleiro oferece material denso para leitura interpretativa. Aberastury (1992) aprofundou esse entendimento ao situar o material lúdico como expressão direta da realidade psíquica da criança. A dimensão projetiva do instrumento, na qual a criança organiza um espaço doméstico simbólico com figuras que representam pessoas e relações, encontra sustentação direta nesses referenciais.

Da Psicologia do Desenvolvimento, o instrumento herda a compreensão piagetiana de que o jogo simbólico é exercício por excelência da função representacional — emergente no período pré-operatório e progressivamente elaborado ao longo do desenvolvimento cognitivo (Piaget, 1975). A perspectiva vygotskiana acrescenta que é no brincar que a criança opera em sua zona de desenvolvimento proximal, comportando-se além do que habitualmente consegue no plano real (Vygotsky, 1991). O terapeuta que observa e eventualmente media o brincar ocupa, nessa leitura, uma posição de andaime — sustentando o desenvolvimento sem dirigi-lo.

Da abordagem sistêmica, o instrumento retira a compreensão de que a forma como a criança distribui e posiciona as figuras no tabuleiro revela sua percepção da estrutura relacional de seu microssistema familiar — fronteiras, alianças, hierarquias, papéis (Minuchin, 1982; Bronfenbrenner, 1996). A casa, como cenário central do instrumento, é o ambiente por excelência do microssistema da criança, e sua organização simbólica pode oferecer indicadores sobre como ela percebe e internaliza as relações que a constituem.

Da Gestalt, o instrumento se aproxima pela ênfase na experiência imediata e no contato. Oaklander (1980) sistematizou o uso de técnicas expressivas com crianças a partir desse referencial, compreendendo a expressão criativa como via de acesso a conteúdos que não encontram passagem pela linguagem verbal. O brincar na Casa Terapêutica Online é, nessa perspectiva, ato expressivo — a criança externaliza, através da construção simbólica, aspectos de sua experiência interna que aguardam reconhecimento.

Da Terapia Cognitivo-Comportamental, o instrumento se sustenta na tradição inaugurada por Knell (1993) com a Terapia Cognitivo-Comportamental Lúdica (TCCL), que integra princípios cognitivos e comportamentais ao contexto do jogo, e nos protocolos de Kendall (2012) para crianças e adolescentes, que enfatizam a necessidade de mediadores lúdicos nas intervenções com esse público. A construção simbólica pode, nesse enquadre, funcionar como veículo para identificação de esquemas cognitivos, modelagem de respostas adaptativas e monitoramento do processo terapêutico.

4 O instrumento no contexto do teleatendimento

A expansão do teleatendimento psicológico — regulamentada no Brasil pela Resolução CFP nº 9/2024 e impulsionada pelas demandas do contexto pandêmico — colocou uma questão clínica genuína: como manter a dimensão expressiva e lúdica das sessões com crianças em contexto remoto? Estudos publicados após 2020 têm examinado essa questão com crescente interesse. Pesquisa realizada com psicoterapeutas infantis na Turquia indicou que a psicoterapia por videoconferência com crianças apresenta vantagens como o acesso a pacientes geograficamente distantes, conforto e flexibilidade, economia de recursos e, de modo relevante para a clínica infantil, aumento da participação paterna no processo terapêutico (Usluoglu; Balik, 2023).

Revisões sistemáticas sobre tratamentos psicológicos mediados pela internet indicam que a aliança terapêutica se estabelece de forma comparável à observada em atendimentos presenciais, ainda que a qualidade desse vínculo em contextos online permaneça objeto de investigação (Sucala et al., 2012; Feijó et al., 2021). Esse dado é clinicamente relevante: sugere que a mediação tecnológica não inviabiliza a dimensão relacional do encontro terapêutico — condição que a Casa Terapêutica Online pressupõe ao situar o terapeuta como presença ativa durante toda a sessão, e não como observador remoto de um processo autônomo.

A sincronização em tempo real entre os dispositivos do terapeuta e do paciente constitui uma característica central do instrumento e está alinhada a esse pressuposto clínico. O brincar não ocorre como atividade isolada, mas no interior de uma relação terapêutica em que o profissional observa, acolhe e intervém de acordo com seu referencial teórico. Estudos sobre o brincar mediado por tecnologias digitais indicam que interações e brincadeiras, digitais ou analógicas, devem estar presentes na infância de modo mediado e contextualizado, uma vez que a tecnologia modifica espaços, brinquedos e formas de brincar sem eliminar a função relacional do adulto (Farias; Pizzol; Santinello, 2020). A Casa Terapêutica Online, portanto, não substitui a presença clínica do terapeuta; pressupõe-na como condição de uso.

5 Dimensões clínicas observáveis

O instrumento oferece ao profissional um campo de observação estruturado em múltiplas dimensões. A organização espacial — como a criança distribui os elementos pelos seis cômodos, quais ambientes recebem investimento simbólico e quais são esvaziados ou evitados — constitui um dos eixos centrais. As configurações relacionais — quem está com quem, quem é isolado, como as figuras de diferentes gerações se posicionam entre si — oferecem material para leitura das dinâmicas de vínculo e pertencimento percebidas pela criança. A escolha e o posicionamento dos objetos — especialmente aqueles com carga simbólica particular, como armas, ferramentas, animais ou objetos de cuidado — acrescentam uma dimensão projetiva densa. E o processo de construção em si — como a criança inicia, reorganiza, hesita ou avança e de que forma ela nomeia e narra — frequentemente revela tanto quanto o produto final.

Russ (2004), em sua sistematização dos estudos sobre o brincar em contexto clínico, identificou dimensões afetivas e cognitivas do brincar que se mostraram empiricamente associadas a indicadores de saúde mental e desenvolvimento em crianças. A diversidade afetiva presente no brincar, a capacidade de integrar afetos positivos e negativos numa narrativa coerente e a qualidade do pensamento imaginativo foram consistentemente relacionadas a melhores desfechos terapêuticos. O instrumento foi desenvolvido com atenção a essas dimensões: o acervo inclui figuras com expressões emocionais diversificadas, e o ambiente de seis cômodos convida a uma organização narrativa que vai além do posicionamento isolado de elementos.

6 Abordagem terapêutica e relatório observacional

Um aspecto diferenciador do instrumento é a possibilidade de o profissional selecionar o referencial teórico que orientará a geração do relatório observacional estruturado. Cinco abordagens estão disponíveis: Psicanálise, Psicologia do Desenvolvimento, Terapia Sistêmica, Gestalt e Terapia Cognitivo-Comportamental. O relatório é gerado por um sistema de templates de prompt, com ramificação por abordagem teórica e injeção condicional de contexto via LLM (Large Language Model). A partir da configuração final do tabuleiro e dos dados do paciente registrados pelo profissional, o sistema produz três parágrafos de fundamentação teórica calibrados conforme o referencial escolhido: leitura dinâmica e relacional, leitura do desenvolvimento socioemocional e recomendações para as próximas sessões.

É necessário explicitar o estatuto desse recurso: trata-se de uma observação auxiliar, de natureza descritiva, que deve ser analisada criticamente pelo profissional à luz de seu conhecimento clínico, da relação estabelecida com o paciente e do contexto específico da sessão. O relatório não produz diagnósticos, não substitui a escuta clínica e não dispensa o julgamento profissional. Sua função é oferecer um rascunho estruturado para reflexão clínica, e não estabelecer conclusões autônomas.

7 Considerações finais

A introdução de instrumentos digitais na clínica infantil suscita questões relevantes sobre a preservação da dimensão relacional e simbólica do encontro terapêutico. Tais questões exigem análise crítica, especialmente quando se trata de recursos voltados à escuta clínica de crianças e adolescentes. A literatura emergente e a experiência clínica indicam que a qualidade do encontro terapêutico não depende exclusivamente do meio utilizado — presencial ou remoto, analógico ou digital —, mas das condições de presença, disponibilidade, escuta e manejo técnico do profissional.

A Casa Terapêutica Online foi desenvolvida a partir dessa compreensão. O instrumento não substitui técnicas, procedimentos ou modalidades de atendimento já estabelecidos; sua finalidade é ampliar o repertório técnico do profissional que atende crianças e adolescentes, oferecendo um espaço de construção simbólica estruturada acessível por dispositivo digital e dependente da mediação clínica do terapeuta.

Para profissionais interessados em conhecer o instrumento, há uma versão trial com acesso limitado a dois minutos de uso, incluindo os principais recursos do ambiente, exceto a geração de relatório. A versão completa, que inclui acesso integral às funcionalidades e à geração de relatório observacional para apoio, está disponível mediante licença.

Conflito de Interesses

A autora declara ser idealizadora e fundadora da plataforma Casa Terapêutica Online, objeto de análise deste artigo. A elaboração deste texto buscou descrever os fundamentos clínicos do instrumento com rigor técnico e distanciamento crítico, não configurando material publicitário.

Declaração de Disponibilidade de Dados

Este artigo é de natureza teórica e não reporta dados empíricos de pesquisa primária. Todo o conteúdo relevante para a compreensão do instrumento está descrito no próprio texto.

Declaração de Uso de IA

Ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas exclusivamente como apoio à revisão textual, formatação e tradução do resumo e do abstract deste manuscrito. A concepção teórica, a redação do conteúdo científico e as conclusões apresentadas são de autoria exclusiva da pesquisadora.

Referências

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